O lado "obscuro" do pontificado de João Paulo ll

AUTORIA – Lucrecia Rego de Planas
TRADUÇÃO LIVRE – Ammá
FONTE – www.es.catholic.net

João Paulo II será declarado beato no próximo 1º de maio, segundo anunciou o Papa no mês de janeiro passado. Diante da notícia, ninguém ficou impávido, porém as reações têm sido as mais diversas dentro e fora da Igreja.

OS "NEGOCIANTES"

Estou falando aqui de imprensa, casas editoriais, linhas aéreas, agências de viagem, hotéis e fabricantes de lembranças e objetos promocionais e religiosos. Este grupo recebeu com grande alegria a notícia da beatificação – ainda que a maioria não tenha idéia do que significa um beato -, por ver nela uma enorme oportunidade para lucrar economicamente com a devoção das pessoas: tiraram de seus depósitos os escritos já empoeirados de João Paulo II para exibi-los de novo, depois de cinco anos de escondidos, nas vitrines das livrarias; começaram a produção em série de estampas pequenas, medalhas, imagens, bandeirolas, bolas... todos com a imagem de João Paulo II, para obter um bom estoque à venda próximas à data da beatificação; bloquearam todos os voos para Roma e hotéis nessa cidade, nessas datas, para armar e vender "pacotes" para os peregrinos que queiram assistir o magno evento e que possam, claro, pagar o elevado preço.

Tudo bem, ao meu juízo. Todos são negócios lícitos e, se usando como pretexto algo bom (muito bom) como é a beatificação de João Paulo II, se criarem novas fontes de emprego e se gerarem riqueza para as famílias dos comerciantes... está bem.

OS "ENTUSIASTAS"

A "geração João Paulo II" - muitos milhões de católicos que agora têm entre 20 e 30 anos – nasceu e cresceu sob o seu pontificado; viu-o em todos os meios de comunicação, em centenas de fotos e cenas do "Papa viajante", abraçando crianças, nativos, indígenas, enfermos e anciãos. Viu-o, com simpatia, em fotografias, esquiando nos Alpes suíços, caminhando por paisagens formosas com botas e mochila ao ombro, colocando na cabeça sombreiros típicos dos lugares que visitava.

Jamais leu um discurso, um livro, uma carta ou encíclica dele (todos eram muito pequenos para fazê-lo), porém todos gritaram com entusiasmo, em algum momento: "João Paulo II, te quer todo o mundo" ao vê-lo passar ao longe em seu Papamóvel ou em algum evento que reuniu multidões como as Jornadas Mundiais da Juventude.

Esta geração está sensivelmente emocionada com a beatificação. Trata-se de "seu" Papa, ao qual quer bem, ao mesmo tempo estranha e venera, pois, ainda que jamais tenha lido alguma coisa dele, nem recorde uma só palavra de seus discursos, sua simples imagem lhe traz recordações belas de sua infância.

Não ficou quieta com a notícia. Grande parte dos que são dessa geração já está organizando, em todos os rincões do planeta, homenagens, jornadas, eventos, para festejar a beatificação em grande estilo e ter, sim, de novo, a oportunidade de gritar emocionada, "João Paulo II, te quer todo o mundo". Já foram reservados grandes palcos, auditórios, estádios e cines e se estão criando vídeos, hinos e canções com os últimos avanços tecnológicos e sofisticadas cenografias para que no festejo haja de tudo: imagens 3D, som "surround" e efeitos especiais que exaltem o coração de todos que vão assistir.

Segundo alguns, todo este entusiasmo juvenil, seus esforços e o dinheiro que se está investindo na organização dos grandes eventos, seria muito mais frutífero para o Reino de Cristo se se investisse na evangelização e na formação de tantos católicos que não conhecem a sua fé.

Não sei... pode ser que tenham razão. A mim, pessoalmente, mais que a festa, me questiona o fato de que, se a beatificação autoriza apenas o culto local (e não universal, que é permitido e obrigatório somente depois da canonização), tal como o confirmou recentemente o Cardeal Saraiva: é lícito, canonicamente falando, organizar e promover estes festejos em torno da pessoa de João Paulo II, fora do lugar onde será a beatificação?

Deixo a pergunta no ar, pois não sei a resposta.

OS "RESSENTIDOS"

Quando muito, isso sim, os "ressentidos" são uma dezena de pessoas muito barulhentas, extremamente ruidosas, que estão verdadeiramente furiosas com a beatificação. Em seu tempo, apresentaram suas petições a João Paulo II; este não las concedeu e agora, ressentidos, buscam a maneira de se vingarem dele, procurando difamá-lo nos meios de comunicação, alegando que acobertou e solapou e não sei quantas coisas mais. Não há quem os escute, porém, seguramente, continuarão gritando nos meios de comunicação que se prestam a divulgar seu rancor.

OS "PUNIDOS"

Aqui, falo desses pequenos grupos que, como os anteriores, também estão ressentidos contra João Paulo II porque foi ele quem os pôs "em seu lugar" e os admoestou, em público, desmascarando suas infidelidades. Aqui estão, entre outros, os teólogos da libertação, as feministas radicais, os homossexuais, os padres casados, os promotores do sacerdócio feminino e da abolição do celibato. Todos estes se opõem à idéia da beatificação, tachando João Paulo II de retrógrado e intolerante. Enfim... com suas queixas, grosseiras e desrespeitosas, estão se mostrando e confirmando o mal que estão fazendo.

OS "CRÍTICOS"

Pessoas entre 45 e 60 anos, bons católicos – muito bons -, que viveram a transição Pio XII-João XXIII-Paulo VI-João Paulo I-João Paulo II e sofreram com as desordens pós-conciliares. Estes são os que estão acostumados a buscar "o pontinho negro no arroz", com frases deste tipo: "Tudo bem, mas...". A próxima beatificação de João Paulo II não foi a exceção e os críticos começaram a buscar e encontrar "os pontos negros". Seguiram de perto João Paulo II, escutaram com atenção seus discursos, leram suas cartas e encíclicas, admiram-nos, querem-lhe bem, sabe que foi uma pessoa excepcional, porém... – Por que beijou o Corão em 1999? - Por que no encontro com a juventude mulçumana os convidou "a viver sua fé também em outros países", em lugar de convidá-los a se converterem ao cristianismo? - Por que, no México, aceitou receber um "banho" das mãos de uma bruxa, durante a cerimônia de canonização de São Juan Diego? - Por que permitiu que se pusesse a imagem de um buda sobre o altar (reservado para a Eucaristia) durante o encontro de Assis e, ao contrário, não permitiu, aí mesmo, que se entronizasse a imagem da Virgem de Fátima "para não ferir a sensibilidade das outras crenças"? - Por que não permitiu, na África, que uma mulher topless lesse as leituras durante a Missa? - Por que colocou uma oração no Muro das Lamentações em Jerusalém, como se fosse um judeu? - Por que aumentou os mistérios do Rosário, sendo uma oração "intocável" ditada pela própria Virgem? - Por que se rebaixou para "orar" junto com bruxos vodus – declaradamente satânicos – no encontro de Assis? - Por que...?

Enfim, estas pessoas não são más (pelo contrário). Querem a beatificação de João Paulo II, porém... sim... expressam, um pouco consternados, que teriam gostado que alguém lhes explicasse se se revisaram, durante o processo, estas ações "pouco ortodoxas" – ao seu juízo – de João Paulo II. Ignoro se a Santa Sé tornará público todo o estudo prévio para a beatificação. Suponho que não. Assim, estas pessoas ficarão com a dúvida e, estou segura que, enquanto se declarar beato a João Paulo II, o venerarão obedientemente, pois são pessoas fiéis ao Papa e ao Magistério.

OS "FÃS DO CARDEAL RATZINGER"

Este é um grupo bastante numeroso de excelentes católicos que amam profundamente a Igreja, conhecem e defendem a Tradição e a Sagrada Liturgia e que, baseando-se nas palavras do então Cardeal Ratzinger na Via Sacra do ano 2005, alguns dias antes da morte de João Paulo II, se perguntam: "Pode ser declarado beato alguém que deixou a Igreja neste estado tão deplorável?"

Aqui, copio alguns extratos das palavras do Cardeal: "Porém, não deveríamos pensar também no que deve sofrer Cristo em Sua própria Igreja? Quantas vezes se abusa do santo sacramento de Sua presença, com que vazio e maldade de coração se entra nele com frequência!? Quantas vezes celebramos somente nós, sem nos dar conta sequer dEle!? Quantas vezes se deforma e se abusa de Sua Palavra!? Que pouca fé há em muitas teorias, quantas palavras vazias!? Quanta sujeira na Igreja e também entre os que, por seu sacerdócio, deveriam estar completamente entregues a ele!? Quanta soberba, quanta autossuficiência!? Quão pouco respeitamos o sacramento da reconciliação, no qual Ele nos espera para levantar-nos das nossas quedas!? [...] Senhor, frequentemente Tua Igreja nos parece uma barca a ponto de afundar, de fazer água por todas as partes. E também em Teu campo vemos mais cizânia do que trigo. Assombram-nos sua veste e seu rosto tão sujos! Porém, nós mesmos os sujamos. Nós somos aqueles que te atraiçoam [...]".

Este grupo está erroneamente convencido de que João Paulo II se dedicou a viajar e a estabelecer relações diplomáticas e descuidou, enquanto isso, do interior da Igreja e do depósito da fé. A existência deste grupo é o que me impeliu a escrever este artigo, pois estou convencida de que estão no erro. Efetivamente, durante todo o pontificado de João Paulo II, os meios de comunicação se dedicaram a publicar apenas as suas viagens apostólicas e diplomáticas e suas lindas fotografias com governantes e pessoas com trajes folclóricos. Porém... houve uma parte muito importante no pontificado de João Paulo II que os meios de comunicação deixaram na mais completa obscuridade. Não fizeram disso a mínima promoção, não sei se por ignorância ou omissão voluntária. É o "lado obscuro" do pontificado de João Paulo II, não porque seja tenebroso, mas porque ficou na obscuridade dos arquivos vaticanos.

Para este grupo, quero fazer uma lista – de maneira alguma exaustiva – de algumas coisas que foram feitas durante o pontificado de João Paulo II para defender a fé e disciplina dentro da Igreja. Pensei coloca-la aqui mesmo, porém, ao fazê-la, resultou ser uma lista demasiado longa para deixa-la no corpo do artigo. Assim, coloco-a num artigo à parte, ao qual podem acessar neste link: http://es.catholic.net/escritoresactuales/825/2862/articulo.php?id=49621 [1]. Confio em que, ao lê-la, este grupo refletirá e se dará conta do grande trabalho que fez – também dentro da Igreja – João Paulo II.

OS QUE MELHOR SABEM DO ASSUNTO

Aqui estão, logicamente, o Papa e toda a equipe que colaborou diretamente no processo de beatificação:

· Mons. Slawomir Oder – Postulador da causa, aberta formalmente em 28 de junho de 2005.

· Os Vices-Postuladores, os membros do Tribunal Rogatorial em Cracóvia, os censores teólogos (encarregados de analisar todos os seus escritos), as declarações das testemunhas de visu et ex auditu, o Promotor de Justiça (antes chamado de "advogado do diabo"), o membro do Colégio de Relatores que expôs o caso à Comissão de Teólogos, e estes que, com seu voto positivo, o passaram aos Bispos e Cardeais, membros da Congregação para as Causas dos Santos. Estas pessoas, sim, conhecem o assunto, pois estudaram a fundo (muito a fundo) a vida e a obra de João Paulo II e apresentaram seu voto a favor para que Bento XVI o declarasse Venerável, juntamente com Pio XII, em 19 de dezembro de 2009, confirmando, formal e publicamente, sua vivência heroica das virtudes.

Neste grupo está também o dos médicos, encabeçados pelo Dr. Patrizio Polisca que levaram a cabo, depois, as investigações ao redor da veracidade do milagre apresentado (a cura inexplicável e imediata da monja francesa Marie Simon-Pierre, enfermeira de profissão, que sofria do mal de Parkinson) e que é o que, ao ter sido confirmada, permite que o Papa declare a beatitude de João Paulo II.

Eu, juntamente com a imensa maioria dos católicos, me uno de coração a este grupo. Se o Papa, em sua sabedoria e bondade, e de acordo com todos os estudos que lhe foram apresentados, decidiu declarar beato a João Paulo II, a mim não resta dúvida alguma: uno-me à sua alegria, confiando plenamente que todo o processo foi levado a cabo de maneira meticulosa e exigente, tal como o próprio Bento XVI deixou estabelecido na instrução sobre o procedimento nas causas dos santos, Sanctorum Mater.

Não resta mais que agradecer a Deus pela próxima beatificação e pelo fecundo e prolongado pontificado de João Paulo II, com o qual Deus enriqueceu, abençoou e fortaleceu a Sua Igreja e ao mundo inteiro.

E que viva João Paulo II! E que Deus os encha de bênçãos a todos vocês!

(Terminei de traduzir em 25 de fevereiro de 2011)