Quem são os Padres da Igreja?

AUTORIA – Gabriel González Nares
TRADUÇÃO LIVRE – Ammá
FONTE – www.encuentra.com

RESUMO – Os Padres da Igreja são os pensadores cristãos que contribuíram de forma determinante na construção do edifício doutrinal do cristianismo, aceito e ratificado pela Igreja. Seu período de ação vai dos começos do cristianismo ao século VII.

O cristianismo nasce como religião no tempo do esplendor romano e da grandeza da cultura helênica. Devemos saber que o tempo ao qual nos referimos se caracterizava pelos grandes conhecimentos que a humanidade havia alcançado na Geometria, Física, Filosofia, Medicina, etc. É o tempo em que o poder legal romano alcança todo o mundo mediterrâneo e a cultura grega se espalha pelo mundo conhecido. É o tempo dos césares, da biblioteca de Alexandria e das escolas filosóficas helenistas. Neste ambiente de alta cultura filosófica, os primeiros cristãos tiveram que expor suas crenças em harmonia com a razão, a fim de que os homens pudessem entender que Deus Se havia encarnado em Cristo para a salvação de todos.

Sabemos que a Igreja teve uma origem modesta: composta por um grupo de temerosos pescadores que recuperaram a confiança no Mestre ao vê-lO ressuscitado. Em pouco tempo, o Evangelho, a boa notícia, começou a ser pregado pelo mundo romano. Passado um tempo, as distâncias entre uns cristãos e outros começaram a aumentar. As diferenças entre eles começaram a se acentuar. Então, a unidade da doutrina cristã começa a perigar, uma vez que havia múltiplas interpretações sobre algum tema teológico.

Diante deste problema, algumas autoridades da Igreja começaram a resolver os problemas teológicos dando-lhes uma interpretação acertada, baseando-se nos ensinamentos dos apóstolos. Vários textos foram escritos e enviados aos cristãos de diferentes comunidades, da parte de autoridades de outros lugares. Estes primeiros autores que começaram a definir o corpo doutrinal do cristianismo e a usar ferramentas filosóficas para compreendê-lo melhor foram os Pais da Igreja.

ATRIBUTOS DOS PADRES

É muito extenso o espaço de tempo em que floresceu a Patrística. Começa no século I e termina no século VII, tendo passado por uma consolidação. Nesses tempos, apareceram diversos autores eclesiásticos. Porém, nem todos são reconhecidos como Padres.

O QUE CONSTITUI UM PADRE DA IGREJA?

Assim escreveu João Paulo II, na Carta Apostólica "Patres Ecclesiae", de 27 de janeiro de 1980: "Padres da Igreja se chamam, com toda razão, aqueles santos que, com a força da fé, com a profundidade e riqueza de seus ensinamentos a criaram e formaram no transcurso dos primeiros séculos". Deste ponto de vista histórico e acadêmico, os Padres da Igreja são os pensadores cristãos que contribuíram, de forma determinante, na construção do edifício doutrinal do cristianismo, aceito e ratificado pela Igreja[1].

Desde os inícios da Idade Média, tem-se uma lista de características que um autor cristão antigo deveria ter para ser considerado Padre da Igreja. Hoje em dia, a tradição marca 4 características essenciais dos Padres. As três primeiras são já mencionadas no século V, época de ouro da Patrística, em que alguns pensadores mais antigos já eram considerados como Padres.

Essas características são:

ANTIGUIDADE – Quanto mais antigo for um Padre, mais perto esteve da convivência com os primeiros cristãos e apóstolos. A antiguidade é testemunho da prevalência de uma crença no corpo doutrinal. Se um Padre antigo a menciona, pouco se duvida de sua autenticidade.
ORTODOXIA UNIVERSAL DA DOUTRINA – Excluem-se os escritores abertamente heréticos, cismáticos e aqueles cujas obras continham graves e sistemáticos erros.
CONSENTIMENTO UNÂMIME – A aprovação, por parte da tradição do magistério da Igreja, isto é, fama reconhecida pelos pastores. Este reconhecimento é tácito e de acordo com uma tradição. Não há um documento que aprove a paternidade doutrinal, senão a aceitação das doutrinas.
SANTIDADE DE VIDA – Vida de retidão, virtude e bondade. Não é necessário o título de santo, porém, sim, a fama de santidade. Alguns escritores importantes como Orígenes ou Tertuliano não têm o título próprio de Padres da Igreja, pois alguns aspectos de sua vida são ainda controvertidos. Sem dúvida, tematicamente, são considerados dentro do grupo.
CARACTERÍSTICAS DOUTRINAIS COMUNS DOS PADRES DA IGREJA

Já mencionamos que o cristianismo nasceu durante o esplendor do domínio romano e da cultura helênica. Portanto, teve que se confrontar com profundas críticas da parte dos governantes e dos filósofos. As leis imperiais e a filosofia pareciam opostas ao cristianismo. Sem dúvida, os primeiros Padres Apostólicos souberam adaptar cristianismo, filosofia e política, harmoniosamente. Levando em conta que a exposição das ideias cristã, em um mundo como o que descrevemos, levou à criação da primeira literatura cristã, incluindo os evangelhos e as cartas dos primeiros bispos, assinalaremos brevemente as características comuns que os Padres apresentam em suas obras:

Diálogo com a filosofia para entender melhor os conteúdos da fé.
Apreço pela razão para enriquecer e fazer um discurso teológico correto.
Explicitação da mensagem de Cristo no Evangelho, sob a direção das autoridades apostólicas e a correspondência do Novo Testamento com o Antigo.
A conservação da pureza doutrinal do cristianismo frente às novas heresias e interpretações incorretas dos tema centrais do cristianismo.
O uso da língua local para difundir ou defender as ideias centrais do cristianismo, em estilo elegante e conciso.
PADRES DO ORIENTE E PADRES DO OCIDENTE

O cristianismo se originou na Judeia. Seus primeiros seguidores difundiram suas ideias em língua aramaica. Sem dúvida, os cristãos entraram em contato com o mundo mediterrâneo oriental. Rapidamente passaram a usar o grego como língua de difusão. Esta mudança teve consequências frutíferas, pois o grego era uma das línguas comuns então. Assim, o cristianismo se difundiu sem obstáculos. Eventualmente, os cristãos que chegaram a Roma ou às regiões de forte influência latina, começaram a usar o latim para difundir o cristianismo.

Esta divisão linguística dá, em grande escala, a classificação geográfica dos Padres Gregos e Latinos. Ambas as vertentes se aproximam para resolver semelhantes problemas teológicos que eram propostos por grupos sectários. Assim, Santo Atanásio de Alexandria discutiu com os arianos; Santo Irineu de Lyon, com os gnósticos; Santo Agostinho de Hipona, com os maniqueus, e Boécio, com os nestorianos. Em todo caso, a doutrina católica se manteve reta em todos os ângulos geográficos do cristianismo.

POR QUE É IMPORTANTE ESTUDAR OS PADRES, HOJE?

No século XXI, por que devemos ler autores há 1.400 anos? Simplesmente pela perenidade e pelo valor de seus ensinamentos. Os Padres são clássicos: homens universais que tratam dos problemas fundamentais do ser humano. Os Padres foram, por sua vez, filhos de seu tempo e filhos de Deus por meio de Cristo. A partir de sua cultura clássica, souberam buscar o entendimento da fé com a plenificação das faculdades humanas, sobretudo, da intelectual:

FÉ E RAZÃO – O entendimento razoável dos ensinamentos. Um dos problemas resolvidos pelos Padres é a aparente oposição entre a fé e a razão: se já se tem a fé e se se conhecem as realidades últimas, qual a finalidade que tem a razão no pensar humano? E se já se tem a razão como proximidade natural da realidade eterna, de que serve a fé na aceitação de um Deus desconhecido? A maioria dos Padres se compenetrou da filosofia clássica, sem renunciar à sabedoria de Deus apresentada em Cristo. A visão de Cristo como Razão do Pai lhes permitiu entender, a partir de uma limitada razão humana, os ensinamentos revelados. Souberam buscar o entendimento da fé com a plenificação das faculdades humanas, sobretudo, da intelectual. Portanto, puderam falar racionalmente, de temas religiosos, respeitando os conhecimentos revelados, porém entendendo-os muito bem dentro dos limites da razão humana.
Muitos Padres da Igreja fizeram uma enculturação dos ensinamentos revelados, vertendo-as para uma linguagem que foi inteligível para os neófitos e que não alteraria o conteúdo doutrinal daqueles ensinamentos. No dizer da maioria dos Padres, a fé busca o entendimento, isto é, quem não procura entender aquilo em que crê, não crê bem, completamente, e não plenificou suas faculdades intelectuais. Por tanto, há que se explicitar as doutrinas de Cristo a fim de que elas sejam entendidas e feitas vida em plenitudes.

PROBLEMAS FUNDAMENTAIS PROPOSTOS E ABERTOS À SOLUÇÃO – Devido à formação clássica, os Padres aprenderam a discutir sobre temas de importância radical para o ser humano: a existência de Deus, a imortalidade da alma, a liberdade do homem, a felicidade eterna. Baseando-se na autoridade de Cristo e valendo-se da filosofia, deram valiosas interpretações sobre o mundo, o homem e a natureza de Cristo. Por exemplo: apresentaram o homem como um ser composto, integrado pelo corpo, alma e espírito. Sem estes três componentes, o homem não existe em plenitude. Por tanto, a maioria deles acreditou que, para plenificar o homem, há que se buscar a plenitude integral, levando em conta cada um dos componentes.

[1] REALE G. , ANTISERI D., “Problemas doctrinales y filosóficos que surgen ante la Biblia” en Historia del Pensamiento filosófico y científico, Volumen I, Ed. Herder, Barcelona, 2009, p.352.