Francisco e o milagre do ícone


Em primeiro lugar, o motivo: um dia de jejum e oração para pedir a paz na Síria, no Oriente Médio, e onde há guerra, com a participação não somente dos católicos, mas também de homens de cada religião, ou, simplesmente, "de boa vontade". Não somente em Roma, mas também em inúmeras cidades do mundo.

Em segundo lugar: a duração. Não se tem lembrança de uma vigília pública de oração de 4 horas seguidas, do entardecer até noite adiantada, com a presença constante do Papa.

Em terceiro lugar: o silêncio. Durante todo o tempo de sua duração, o recolhimento das cem mil pessoas que abarrotavam a Praça São Pedro e as zonas circunvizinhas foi intenso e cheio de emoção, em sintonia com a acentuada austeridade da própria presença do Papa.

Depois, sobretudo, a forma com que foi conduzida a oração. Começou com o rosário, a mais evangélica e universal das orações "populares" e com a meditação do Papa Francisco. Prosseguiu com a adoração da Eucaristia. Continuou com o Ofício das Leituras – isto é, a salmodia noturna dos monges -, com a leitura de fragmentos de Jeremias, de São Leão Magno e do evangelho de João. Concluiu-se com o canto do "Te Deum" e com a bênção eucarística dada pelo Papa.

Porém, talvez, o que mais impressionou aos presentes foi a entrada, na Praça, ao início da celebração, do ícone mariano da "Salus Populi Romani", sustentado por quatro soldados da Guarda Suíça e precedida por duas meninas com flores. O ícone foi entronizado na frente do Papa Francisco que o venerou com devoção, sendo, além disso, o ponto de referência de toda a vigília, ao lado do altar.

A data deste ícone da Mãe de Deus, conservado na Basílica de Santa Maria Maior e denominada, desde o século XIX como "Salus Populi Romani", é controvertida, oscilando entre os séculos VII e XII.

A tradição sustenta que é uma cópia, pintada pelo evangelista Lucas, de uma imagem de Maria com o Menino aparecida de forma milagrosa em Lydda, em uma igreja construída pelos apóstolos Pedro e João.

Conservado inicialmente em Bizâncio, conta-se que o ícone chegou a Roma por mar, sendo acolhido pelo Papa Gregório Magno às margens do Tibre.

O Cardeal Cesare Baronio, historiador da Igreja, escreveu que foi o Papa Gregório quem levou o ícone à Basílica de Santa Maria Maior, no ano 590, ao final de uma procissão para invocar o fim de uma das pestes mais graves da cidade. Nessa ocasião, viu-se o Arcanjo Miguel empunhando sua espada sobre a cúpula adriana. A peste terminou e a cúpula adriana tomou o nome de Castel Sant'Angelo.

Outra peste terminou no século XVI, graças à intercessão da Virgem representada neste ícone, quando São Pio V a levou em procissão à Basílica de São Pedro.

Os jesuítas se fizeram acompanhar em suas primeiras missões por reproduções deste ícone, muito venerado por eles.

Pio XII lhe rendeu homenagem quando proclamou o dogma da Assunção em 1950 e a coroou de novo em São Pedro em 1954, no centenário da proclamação do dogma da Imaculada.

João Paulo II associou uma cópia deste ícone à Jornada Mundial da Juventude do ano 2000, em Roma. A partir da Jornada de Colônia em 2005, celebrada por Bento XVI, todas as seguintes Jornadas Mundiais da Juventude levaram em peregrinação, junto com a Cruz, uma cópia do ícone da "Salus Populi Romani".

Também o Papa Francisco quis que estivesse na Jornada Mundial da Juventude do Rio de Janeiro, em julho passado. Após ser eleito Papa, sua primeira saída foi à Basílica de Santa Maria Maior, para ajoelhar-se em oração diante deste ícone.

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A imagem nele representada é a chamada "Odigitria": a Virgem tem em seus braços o Menino que a olha amorosamente enquanto, com a direita, no gesto de abençoar, parece indicar a via, da qual a Mãe conhece bem a direção e o caminho.

Neste ícone, impressiona o olhar intenso de Maria que convida a percorrer o caminho indicado pelo Filho. Ela olha ao longe, precisamente na direção que Ele indica. Sua mão direita, que sustenta o Filho, repete o gesto de Jesus e o prolonga.

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No antigo ritual romano, na festa da Assunção de Maria ao céu, o ícone da "Salus Populi Romani" recebia, à porta da Basílica de Santa Maria Maior, o ícone de Cristo "Acheropita" (não pintado por mão humana), conservado na "Sancta Sanctorum" da residência do Papa em Laterano, levado até lá em procissão. Em uma espécie de dança entre dois ícones, o Filho rendia homenagem à Mãe.

A decisão do Papa Francisco de colocar ao centro da vigília pela paz este ícone da Mãe de Deus – não uma cópia, mas o original – traz, portanto em si toda a força do significado de sua história. Nele, o Papa vê a fé do povo de Deus que, durante séculos, em todos os momentos de crise, se achegou ao redor deste ícone para impetrar um sinal da graça do céu, porque "o que é impossível aos homens, não é impossível para Deus".